Música vocal no século XVI: teoria e prática

Até ao momento estudámos o uso do contraponto rigoroso enquanto método de estudo e aproximação à prática da composicional no período da contra reforma católica (meados do século XVI). Apesar de só termos realizado exercícios a duas vozes, uma combinação de duas quintas espécies sobre um cantus firmus, a três vozes, pode resultar como o exemplo que de seguida apresento, onde o cantus firmus contém a melodia retirada do canto gregoriano que serviu de base à referida composição. Por simplicidade de concepção estrutural, as quatro secções em que este cantus firmus se subdivide correspondem às quatro divisões da própria melodia gregoriana usada como base do mesmo. Ouça este Chorus Angelorum.

 

Contudo, o estilo desta época é caracterizado, não por uma construção do tipo acima apresentado, mas fundamentalmente pelo uso de uma construção baseada numa técnica imitativa, designada usualmente por técnica de paráfrase (isto porque os motivos imitados tendem a ter origem em melodias gregorianas). Desta forma, de seguida, começo por apresentar dois exemplos do uso desta técnica imitativa a duas vozes (clique em cima do respetivo compositor para as ouvir):

[1] De Orlande de Lassus (1530/2 - 1594)




[2] De Tomás Luis de Victoria (1548 - 1611)





É no período áureo do Renascimento musical, durante o século XVI, que a generalidade da música, associada aos modelos sancionados pela contra reforma católica, é estruturada com base em técnicas imitativas, algo que já tinha começado a ganhar ênfase pelo menos desde a geração de Josquin des Prez, nos finais do século XV. É este tipo de técnica que aqui designo genericamente por técnica de paráfrase, uma vez que os fragmentos rítmico-melódicos imitados são muitas vezes baseados em pequenos fragmentos melódicos retirados do canto gregoriano. Assim, ao contrário do exemplo a três vozes acima mostrado, iremos agora ter pequenos fragmentos melódicos, também baseados numa outra melodia gregoriana, mas desta vez usados na construção de uma estrutura imitativa a três vozes. Desta forma, com base na seguinte melodia gregoriana:



Construí os seguintes motivos rítmico-melódicos que serviram de base para tecer toda a estrutura musical.

  • Secção A [Soprano e Baixo]

  • Secção A [Tenor]


  • Secção B [Soprano, Tenor e Baixo]


  • Secção C [Soprano e Baixo]


  • Secção C [Tenor]


  • Secção D [Soprano, Tenor e Baixo]


Cada uma das quatro seções construídas usa um único motivo -- em duas delas, com pequenas alterações numa das vozes com vista a facilitar o seu encaixamento na estrutura harmonia utilizada --, recorrendo exclusivamente a uma técnica de carácter imitativo. Assim, com base neste material, construí o seguinte Ave Maris Stella:



Observe com atenção o exemplo acima apresentado, tentando compreender os diversos aspectos técnicos possíveis de observar na escrita deste pequeno trecho a três vozes. Repare que o ritmo utilizado, em cada uma das três vozes, é na realidade de quinta espécie.


Texto de Apoio